Instituto Caju Brasil leva a cajucultura do campo ao debate nacional

Criada em Fortaleza, organização atua na valorização do caju, na capacitação de produtores e profissionais, no combate ao desperdício e na construção de políticas públicas para a cadeia produtiva.

Durante muito tempo, falar em cajucultura no Brasil significava tratar quase exclusivamente da produção e do beneficiamento da castanha. Nos últimos anos, porém, o setor passou a discutir com mais intensidade o aproveitamento do pedúnculo, a gastronomia, a geração de renda, a inovação tecnológica e a presença dos produtos derivados do caju em novos mercados. É nesse movimento que se insere a atuação do Instituto Caju Brasil.

Imagem: divulgação

O Instituto Caju Brasil, conhecido pela sigla ICB, foi fundado em Fortaleza em 20 de dezembro de 2018. Registrado como associação privada sem fins lucrativos, nasceu com o propósito de promover o desenvolvimento sustentável do setor rural e agroindustrial, tendo como foco principal o cajueiro e toda a sua cadeia de valor: da produção no campo ao consumo final.

A proposta do Instituto parte de uma visão ampla da cajucultura. Além de apoiar o aumento da produção e da produtividade dos pomares, a organização busca aproximar agricultores familiares, pesquisadores, cooperativas, agroindústrias, profissionais da gastronomia, representantes do poder público e empresas interessadas no desenvolvimento do setor.

Entre os objetivos registrados oficialmente pelo ICB estão a disseminação de tecnologias de cultivo e processamento, o apoio aos pequenos produtores rurais, a realização de estudos e pesquisas, a promoção de capacitações e a criação de ambientes para novos negócios. A entidade também atua na defesa do meio ambiente, no combate à pobreza e na valorização das comunidades que vivem da cadeia produtiva do caju.

Combate ao desperdício
Um dos principais desafios enfrentados pela cajucultura brasileira está no aproveitamento integral do caju. Estudos da Embrapa apontam que, apesar das possibilidades de transformação do pedúnculo em sucos, doces, cajuína, bebidas, farinhas, fibras e outros produtos, aproximadamente 75% desse material ainda deixa de ser aproveitado.

Esse desperdício representa não apenas uma perda de alimento, mas também de renda para produtores e comunidades rurais. Por isso, o Instituto passou a investir em ações educativas, oficinas, palestras, treinamentos, fóruns, competições gastronômicas e atividades de assistência técnica voltadas ao aproveitamento integral do caju.

O ICB já realizou mais de 200 ações, com atividades em 15 estados brasileiros e sete países.

Participação na construção de políticas públicas

Além das ações técnicas e educativas, o Instituto passou a participar de discussões nacionais sobre políticas públicas para a cajucultura. Em setembro de 2024, o ICB esteve entre as instituições convidadas para uma audiência pública da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado Federal, ao lado de representantes da Embrapa, do Banco do Nordeste, da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará e de organizações de produtores.

Dois meses depois, em 5 de novembro de 2024, o desenvolvimento sustentável da cajucultura brasileira foi discutido em audiência pública na Câmara dos Deputados. Maurício Campos participou do encontro como representante do Instituto Caju Brasil, apresentando questões relacionadas ao desenvolvimento econômico, à inclusão social e à necessidade de políticas capazes de fortalecer a atividade.

O reconhecimento institucional ganhou um novo capítulo em 2025, quando o Instituto Caju Brasil foi declarado de utilidade pública no Estado do Ceará por meio da Lei nº 19.358. A legislação reconhece a atuação da organização no desenvolvimento sustentável das atividades rurais e agroindustriais.

Uma cadeia que enfrenta novos desafios

O trabalho do Instituto ocorre em um momento decisivo para o setor. Dados do IBGE mostram que a produção brasileira de castanha-de-caju foi estimada em 135,9 mil toneladas em 2025, resultado 15,6% inferior ao registrado em 2024. O Ceará permaneceu como o maior produtor nacional, com produção estimada em 83,9 mil toneladas, mas a cadeia foi afetada pela estiagem, pela irregularidade das chuvas e por problemas fitossanitários.

Nesse cenário, ampliar a produtividade, renovar os pomares, fortalecer a assistência técnica, reduzir o desperdício e criar novos mercados são desafios que exigem articulação permanente.

Ao reunir campo, pesquisa, gastronomia, empreendedorismo e poder público, o Instituto Caju Brasil procura dar visibilidade a uma cadeia que faz parte da história e da economia do Nordeste. Mais do que defender um produto, sua atuação busca mostrar que o caju pode ser instrumento de desenvolvimento regional, geração de renda e valorização da agricultura familiar.

Do cajueiro plantado no semiárido aos novos produtos apresentados em feiras, escolas, restaurantes e mercados internacionais, o caminho defendido pelo ICB é o do aproveitamento integral. Uma estratégia que transforma aquilo que antes era descartado em alimento, trabalho, conhecimento e oportunidade.

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